Aquele sorriso amarelo estava ali, pendurado no meio do nada, como um bêbado otimista demais para a própria ressaca. Olhava para mim sem piscar, fingindo que tudo estava bem, enquanto as árvores secas atrás dele denunciavam a verdade: o mundo não estava a rir, só mostrava os dentes. Era um sorriso de metal, duro, imune ao frio, à chuva e às derrotas diárias que a gente carrega no bolso como moedas inúteis, Pensei que a vida faz exatamente isso - coloca um sorriso grande na estrada e espera que acreditemos nele, que alguém venha resgatar-nos. Ainda assim, seguimos em frente, porque às vezes fingir que está tudo bem é a única forma de continuar a andar.
Era suposto ser uma conversa a dois, mas transformou-se num monólogo à volta de uma garrafa de Porto Tawny, numa noite de São João, algures no Vale do Douro. A companhia está ali — presente e, ao mesmo tempo, ausente. Os copos cheios dão cor e vida a uma conversa sem tema, onde tudo gravita em torno da vida: das vidas de cada um, do passado e do presente que se deseja futuro. A noite cai. Caiu. Já escureceu. Do outro lado do rio brilham as luzes do casario. Pouco mais se vê. A chuva que caiu trouxe consigo o perfume da terra molhada — um cheiro de que ele tanto sentia falta. Os sentidos despertam: o aroma intenso da terra lavada, o paladar ainda sóbrio, a audição perdida na música de fundo que embala o momento com ternura e intimidade. Falta o toque — aquele toque delicado e enérgico de dois corpos unidos por uma força cósmica. Mas ele é possível: basta fechar os olhos, e o coração faz sentir a presença de ambos, em qualquer lugar. Bebamos mais um copo. Deixemos o passado onde está: ad...

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