Avançar para o conteúdo principal

A fechar...

Quantos metros quadrados tem o meu mundo? Por vezes, dezasseis. O quarto. Por vezes noventa. A casa. Por vezes mais, o teatro, o jardim, a cidade, por vezes menos, escondido dentro de mim. Contudo, nunca o meu mundo tem tantos metros quadrados como o mundo, nunca o meu mundo aboliu o espaço em absoluto.

E nesse modo nadamos entre os nossos metros quadrados movediços, nascidos crescemos, crescidos trabalhamos, trabalhando estamos a morrer, morrendo lembramo-nos, contudo os encontros, as pessoas, Deus, os comboios, as palavras, não temos outro tema como a arte não o tem, e todos os livros do mundo, de tantos metros quadrados, são um único livro.


Jorge Listopad

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Monólogo a Dois

Era suposto ser uma conversa a dois, mas transformou-se num monólogo à volta de uma garrafa de Porto Tawny, numa noite de São João, algures no Vale do Douro. A companhia está ali — presente e, ao mesmo tempo, ausente. Os copos cheios dão cor e vida a uma conversa sem tema, onde tudo gravita em torno da vida: das vidas de cada um, do passado e do presente que se deseja futuro. A noite cai. Caiu. Já escureceu. Do outro lado do rio brilham as luzes do casario. Pouco mais se vê. A chuva que caiu trouxe consigo o perfume da terra molhada — um cheiro de que ele tanto sentia falta. Os sentidos despertam: o aroma intenso da terra lavada, o paladar ainda sóbrio, a audição perdida na música de fundo que embala o momento com ternura e intimidade. Falta o toque — aquele toque delicado e enérgico de dois corpos unidos por uma força cósmica. Mas ele é possível: basta fechar os olhos, e o coração faz sentir a presença de ambos, em qualquer lugar. Bebamos mais um copo. Deixemos o passado onde está: ad...

...falta de tempo

Já nem sei quantas vezes me disseram que a maior parte das pessoas neste nosso cantinho do mundo não sentiu a pobreza, mas antes a falta de tempo. Parece uma coisa sensata de dizer, mas não é suficientemente correta. Temos tempo suficiente. A vida é longa se, com bastante frequência, dermos ouvidos a nós mesmos e soubermos ver. Erling Kagge in "Silêncio na era do ruído"

Sê / Apesar de tudo

Sê Apesar de tudo Sê Mesmo cansado. Mesmo semidesalentado. Mesmo assim Sê! Mesmo quando a luz te guiou Parece extinguir-se. Sê Mesmo sentindo Que não sabes como ainda podes. Sê! Sê  Como só tu podes ser. Como só tu queres ser. Como só tu SABES ser. Sê Hermano de César Reis